Artigo: A moral do 25 de Abril

Car@s camarad@s, aqui fica a publicação do artigo “A Moral do 25 de Abril”, redigido pelo camarada André Patrocínio, publicado no Jornal Badaladas. Aqui em concordância com a publicação no referido jornal.

Com os rostos tomados de alívio, os populares partilhavam entre si o acto de libertação de rasgar a mordaça, de enterrar os mais de quarenta anos de privação de liberdade, caminhando nas ruas de Lisboa cobertas de pétalas de cravos, a 25 de Abril. O protesto pacífico, que mais não era do que um estado de alma de reconciliação com os seus direitos inatos, dava início a um exercício da política, com direito ao pluralismo e com a aceitação da diferença, sem demonizações ou filtros de censura pela alcateia de governantes.
Portugal, com a sua democratização em marcha e com o anúncio do processo de descolonização aplaudido pela comunidade internacional, ia por fim erradicando da palavra Nação as conotações pérfidas que lhe tinham injectado, curando assim as suas infecções pro-colonialistas e racistas. Era uma transição que se agradece ao esforço popular. Era do povo e para o povo que se edificava um novo espaço político, firme e transparente, uma força embrionária de democracia, fruto de muitos avanços e recuos, da coesão popular e de coragem.
Apenas trinta e sete anos nos separam desse momento revolucionário a que não assisti. Talvez essa revolução tenha sido precoce e fruto da audácia dos contestatários ao regime, ou porventura, já era um sinal de que o atropelo dos direitos, sob um tecto de censura, não podia mais perdurar. Colocando mais hipóteses absurdas na mesa, tento imaginar-me a aguardar a demissão de Marcelo Caetano, vivendo aquele estado de graça do adeus à cortina ditatorial e à poluição governativa, mas não consigo, a minha imaginação não se envaidece de tanta criatividade. O único retrato que ainda tenho em memória leva-me até Oliveira Salazar, até à sua imagem cinzenta, estampada nos manuais escolares, ou aos documentários visionados na televisão ao sabor das explicações sempre exaustivas dos professores de História. Não produz medo, nem traz adrenalina ao organismo, ao contrário do que acontece com os Capitães de Abril, com as gentes de Abril, com todos aqueles que tiveram de batalhar pela democracia. Para nós, jovens, a democracia é quase uma herança gratuita, um estatuto atribuído, que não implicou uma investida contra os ditames do Estado Novo e contra a sua ingerência na liberdade criativa das artes, nas aspirações político-partidárias e no rumo da educação. Embora não tenhamos sido essa voz activa da revolução, como juventude, ainda assim temos a hipótese de preservar e reproduzir essa valiosa memória social, cuja mensagem de mobilização, de cooperação institucional e de coesão civil continua acesa. Para contrariar o conformismo e o desalento, quando a crise da dívida soberana cede a esperança ao luto, façamos do coração do 25 de Abril uma reminiscência perpétua do que é fazer bom uso da liberdade.

André Patrocínio,

Militante da Juventude Socialista de Torres Vedras

Cumprimentos Socialistas,

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